Parasocial, Parassocial e o vinho como antídoto
(ou: como nos tornamos íntimos de quem não existe para nós)
Publicado em: 03/12/2025 às 08:00
**Parasocial, Parassocial e o vinho como antídoto
(ou: como nos tornamos íntimos de quem não existe para nós)**
Por Eduardo Angheben
Em 2025, o Cambridge Dictionary escolheu “parasocial” como palavra do ano.
Não porque o mundo ficou mais consciente — mas porque ficou mais carente.
“Parasocial” (em língua inglesa) é a forma educada de dizer o óbvio:
estamos trocando pessoas por projeções, vínculos por telas, intimidade por performance.
É a solidão fantasiada de conexão.
A origem — e o aviso ignorado por 70 anos
Em 1956, Horton e Wohl já haviam percebido o que hoje fingimos não notar:
a tecnologia cria sensação de proximidade sem exigir realidade de proximidade.
Desde então, só piorou.
A intimidade virou produto.
A carência, um mercado.
A ascensão digital — ou o triunfo do “parece, logo é”
Antes, tínhamos uma relação imaginária com o apresentador de TV.
Agora, temos com dezenas de desconhecidos por dia — e chamamos isso de “seguindo”.
Seguimos pessoas que não sabem nosso nome.
Admiramos rotinas fabricadas.
Confiamos em narrativas editadas.
Chamamos isso de “intimidade”.
Não é intimidade.
É dopamina com filtro.
A Cambridge apenas carimbou.
Nós fornecemos a dependência.
A engenharia da carência
A relação parassocial é o sonho das plataformas:
barata, viciante, conveniente.
Não exige escuta.
Não exige presença.
Não exige reciprocidade.
Só exige que você continue olhando.
E continuamos — porque é mais fácil se apegar a um rosto na tela do que lidar com pessoas reais, com fricções, falhas e demandas.
A intimidade real exige coragem.
A parassocial exige wi-fi.
E o vinho?
Aqui começa a provocação.
O vinho artesanal é tudo o que a cultura parassocial não tolera:
Lento.
Imprevisível.
Corporal.
Imperfeito.
Um encontro — não um conteúdo.
Não dá para “seguir” um vinho.
Você precisa encontrá-lo.
Ele não devolve likes.
Devolve aroma.
Ele não promete perfeição.
Promete verdade.
E verdade, hoje, é subversiva.
O vinho como resistência — a arte de não viver por simulacros
Enquanto buscamos vínculos fáceis, o vinho lembra:
certas experiências só acontecem quando há corpo, tempo e vulnerabilidade.
Um gole exige presença — justamente o que a cultura digital tenta eliminar.
O vinho não otimiza.
Não performa.
Não usa algoritmo.
Não tenta te seduzir.
Ele apenas está ali — e você precisa estar também.
No mundo do “quase”, o vinho ainda é.
Por que isso importa (e incomoda)
Porque estamos hiperconectados — e incapazes de relação.
Preferimos vínculos editados porque não nos contradizem.
Preferimos presenças artificiais porque não nos exigem.
Preferimos simulacros porque não nos transformam.
O vinho transforma.
E por isso ele é o antídoto.
Não contra a tecnologia — mas contra a desistência do real.
Para quem ainda tem coragem de estar presente
“Parasocial” virou palavra do ano porque descreve uma época que confundiu visibilidade com vínculo e atenção com afeto.
O vinho artesanal faz o gesto oposto:
te devolve ao corpo, ao tempo, ao encontro — ao que não pode ser curtido, apenas vivido.
Num tempo de relações imaginárias, a realidade virou ato de resistência.
E uma taça pode ser o primeiro passo para recuperá-la.