O Orgasmo do Vinho
O mercado gosta de datas. O consumidor gosta de certezas. Mas o vinho — esse organismo vivo — raramente se curva a fórmulas. Nesta crônica, Fernanda Casanova provoca uma reflexão delicada e honesta sobre o chamado “apogeu” do vinho. Existe mesmo um ponto máximo universal? Ou o auge é sempre uma experiência íntima? Uma leitura sobre maturidade, gosto e liberdade.
Publicado em: 20/02/2026 às 15:00
O orgasmo do vinho
Por Fernanda Casanova
O título é para chamar a atenção. O assunto é sobre o apogeu de um vinho... Confesso que pensei, por algumas vezes, se deveria escrever sobre este assunto. Não sou enóloga, mas meu marido sim. Em inúmeras situações, durante nossos atendimentos, as pessoas perguntavam sobre o apogeu do vinho, mas acredito que a maioria não compreendia... inclusive profissionais da área. O assunto é mais abstrato do que se imagina.
Se você for procurar num “dicionário enológico”, apogeu de um vinho refere-se ao ponto máximo de qualidade e expressão que um vinho pode atingir durante seu ciclo de vida. Também podemos definir a fase do apogeu como o período durante o qual o vinho desenvolve sabores e aromas mais profundos e ricos. Os vinhos tintos envelhecidos têm uma cor mais pálida e aromas mais complexos, como trufa, terra e couro. Os vinhos brancos envelhecidos têm uma cor mais escura e aromas mais ricos, como caramelo, mel e nozes. Outros dizem que o ápice é o ponto em que o vinho atinge seu equilíbrio ideal entre juventude e decadência.
Quero ter uma conversa mais ampla, mais verdadeira e compartilhar de forma mais sincera minha opinião sobre tantos conceitos criados em volta deste belo líquido chamado vinho. Primeiramente trago aqui o conceito da palavra apogeu/ápice usado no sentido figurado: o mais alto grau, o auge, a culminância de (algo). Ou ainda ápice, cume, ... ou ainda o ponto culminante de uma carreira, empreendimento ou estado ("ela estava no apogeu de sua profissão").
A partir daí vamos transportar o apogeu para algumas situações reais da nossa vida. Quando você vai à uma festa e alguém lhe pergunta “qual foi o auge da festa?”, você responde de acordo com sua percepção. Essa mesma pergunta feita para diferentes pessoas resultará em diferentes respostas. Talvez um percentual significativo de respostas iguais apareça, mas, ainda assim, as percepções não serão todas iguais. E assim é com a nossa carreira profissional, com a fase dos nossos filhos, com a parte do dia, de um dia comum... cada um de nós pode ter no seu íntimo as escolhas de auge... Confesso que, ultimamente, meus auges diários são com encontros caninos...adoro cães.
Retornando ao assunto central, percebo que meus auges “vinílicos” são com vinhos na idade jovem ou “meia vida” (a meia vida de um vinho também não é tão matemática assim....). Se você me servir vinhos com notas terrosas, de nozes, café passado no pano, ... confesso que não vou “gozar” rsrs. Obviamente podem agradar muitas pessoas e claro que têm seu valor, um vinho de 20, 30 anos tem sua história e seus sabores. Entendo que muitas pessoas querem saber quando tal vinho estará no apogeu ou se aquele vinho antigo está no apogeu... mas me sentiria triste em dar respostas prontas... Penso que o auge do vinho deve ser a melhor fase dele para aquela pessoa que está bebendo. Assim como o auge da nossa vida é nós quem devemos definir ... se é que existe mesmo isso. Nem nas mais belas histórias de vida, como a de Jesus, por exemplo, eu me atreveria em pensar que todas as pessoas escolhessem o mesmo momento como ápice. O autoconhecimento, o saber sobre o próprio gosto, pode nos levar a muitos auges inesperados. Você já pensou sobre isso?