A verdade por trás da tendência zero álcool
A ilusão da “Geração Saúde” e os vícios que ninguém quer nomear
Publicado em: 26/11/2025 às 08:00
A verdade por trás da tendência zero álcool
(Por Eduardo Angheben)
Há alguns meses escrevi aqui no blog uma crônica sobre a narrativa científica em torno dos males do álcool. O artigo se chama “O Ovo, o Vinho e a Ciência” (publicado em 04/02/2025). Nele, mencionei a ideia — repetida à exaustão — de que a Geração Z estaria abandonando o álcool em nome de um estilo de vida mais saudável.
De lá para cá, a mesma história se multiplicou em manchetes, reportagens, colunas e análises.
E, como acontece com tudo que se repete demais, virou quase uma “verdade”.
Hoje, com mais dados e uma leitura econômica mais nítida, fica evidente: a narrativa da juventude “clean”, disciplinada e livre do álcool é incompleta — e profundamente conveniente para certos setores.
E antes de avançar, é importante deixar claro:
não se trata de defender o consumo indiscriminado de álcool.
Trata-se de defender autonomia, discernimento e consumo consciente — exatamente o contrário de qualquer compulsão, seja ela líquida, digital ou farmacológica.
A saúde performática
Sim, muitos jovens bebem menos álcool tradicional — mas isso não os torna mais saudáveis.
A geração que menos consome álcool é também a que mais:
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vive dopaminada pelas telas
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sofre de ansiedade crônica
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usa antidepressivos, reguladores de apetite e estimulantes
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recorre a cigarros eletrônicos
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performa bem-estar como estética
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consome microestímulos constantes para manter a sensação de controle
A abstinência do álcool não significa virtude.
Significa substituição de estímulos — muitas vezes por opções invisíveis e muito mais difíceis de regular.
Os vícios “limpos”, silenciosos e altamente lucrativos
O álcool tem um problema reputacional: é visível.
A dopamina digital, não.
As novas compulsões são discretas e perfeitamente compatíveis com a estética do “bem-estar”:
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scroll infinito
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validação social contínua
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vício em performance
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microdoses de estímulo
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medicalização como rotina diária
A Geração Z não troca álcool por saúde.
Troca álcool por estímulos mais eficientes e menos julgáveis.
A economia narrativa — quem lucra com isso?
Quando uma tendência aparece em todos os veículos ao mesmo tempo, é porque interessa a alguém.
A indústria das bebidas zero álcool
As gigantes do setor investiram fortunas no segmento zero álcool.
E aqui surge um ponto que quase ninguém menciona:
Existe uma guerra silenciosa dentro da própria indústria — não entre inimigos, porque não são, mas entre interesses distintos.
As grandes têm tecnologia, escala e capital para produzir versões zero com qualidade.
Encontraram um campo onde podem competir com vantagem — ao contrário dos vinhos tradicionais, onde muitas vezes parecem confinadas à imagem de commodity.
As pequenas, artesanais ou familiares, não têm como entrar tecnicamente nesse mercado no curto prazo.
Sua força está nos vinhos com autenticidade, sotaque e diferenciação — exatamente nos vinhos tradicionais com álcool.
O resultado é simples:
o mercado zero álcool se torna uma zona protegida, inacessível para a maioria dos produtores independentes.
Quando essa narrativa viraliza, quem ganha?
As grandes — que deslocam a conversa para um território onde só elas conseguem jogar.
Big Tech
Quanto menos encontros presenciais, mais tempo diante das telas.
Quanto menos bares, mais redes sociais.
A redução do álcool fortalece a economia da atenção — onde a dopamina não vem do copo, mas do algoritmo.
A indústria farmacêutica
Se a juventude é realmente tão “saudável”, por que é a mais medicada da história?
Antidepressivos, ansiolíticos, estimulantes, reguladores hormonais e de apetite — tudo cresce em ritmo acelerado.
Mas, ao contrário de uma taça de vinho, esses vícios são silenciosos, aceitáveis e altamente lucrativos.
A indústria da estética
O álcool atrapalha:
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o shape
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a pele
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o metabolismo
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a performance
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a imagem “clean” de rede social
E hoje a virtude não é saúde.
É parecer saudável.
O que está realmente em jogo
Não é sobre saúde.
É sobre controle, narrativa e modelo de vida.
Vinho, especialmente, exige algo que a modernidade não tolera:
ritual, presença, tempo e vulnerabilidade.
Por isso incomoda.
Por isso desaparece da narrativa “limpa”.
O vinho como resistência cultural
Não estamos falando de beber por beber.
Estamos falando de consumo consciente, ritualizado, com discernimento.
Vinho não é excesso.
É escolha.
É encontro — não fuga.
É profundidade — não estímulo rápido.
É autonomia — não compulsão.
E isso é profundamente antifrágil.
As perguntas que ninguém quer fazer
A juventude não bebe porque é saudável…
Ou porque precisa performar saúde?
E mais:
Quem ganha quando o álcool vira vilão, mas vícios digitais, farmacológicos e estéticos passam despercebidos?
A verdade inconveniente
A narrativa da “geração saudável” é conveniente demais.
E, enquanto todos olham para o copo, ninguém percebe as novas formas de vício que avançam sem resistência.
O problema nunca foi o álcool — que, com discernimento, faz parte da cultura humana há milênios.
O problema é tudo o que aceitamos, dócil e silenciosamente, no lugar dele.